Alguns episódios da vida de S. Josemaría
Hospedei-me na casa dum camponês muito bom. Tinha um filho que todas as manhãs saía com as cabras, e eu tinha pena dele ao ver que passava lá todo o dia com o rebanho. Quis dar-lhe um pouco de catecismo, para ele poder fazer a Primeira Comunhão. A pouco e pouco fui-lhe ensinando algumas coisas. Um dia lembrei-me de lhe perguntar, para ver como é que ia assimilando as aulas: - Se fosses rico, muito rico, o que é que gostavas fazer? - O que é ser rico? - Perguntou-me. - Ser rico é ter muito dinheiro, ter um banco... - E... o que é um banco? Expliquei-lhe dum modo simples e continuei: - Ser rico é ter muitas quintas e um lugar de cabras, umas vacas muito grandes. Depois, ir a reuniões, mudar de fato três vezes por dia... O que é que tu farias se fosses rico? Abriu muito os olhos e por fim disse: - Eu havia de comer cada prato de sopas com vinho!... Todas as ambições são apenas isso; nada vale a pena. É curioso: nunca me esqueci daquilo. Fiquei muito sério e pensei: Josemaría, está a falar o Espirito Santo. Foi isto o que fez a Sabedoria de Deus para me ensinar que tudo na terra era assim: muito pouca coisa.
(Salvador Bernal, Apontamentos sobre a vida do Fundador do Opus Dei, Lisboa 1978, 74)
Conheci um pobrezinho que ia a uma cantina de beneficência e que não tinha sequer o cartão que davam aos necessitados. Ia buscar um poucachinho do que sobrava. Era um tempo duro para o coração dum cristão: ver aquela gente com verdadeira fome. Para comer todos levavam os seus tachos. Ele levava um tacho roto. Mas puxava lá fundo do bolso a sua colher de estanho. Via-se que pensava: isto é meu, muito meu. E com a sua colher comia o grão-de-bico e o caldo que lhe davam. Depois voltava a olhar para ela apaixonadamente. Dava-lhe duas chupadas e guardava-a outra vez. Era rico!
(Salvador Bernal, Apontamentos sobre a vida do Fundador do Opus Dei, Lisboa 1978, 322)
Desde que Monsenhor Escrivá de Balaguer teve os primeiros pressentimentos de que o Senhor queria alguma coisa dele, algo que não sabia o que era, começou a pedir luz para ver a vontade de Deus - "ut videam!, que eu veja! - e repetia una invocação confiante, para que se realizasse aquilo que o Senhor queria: Domine ut sit!, Senhor que se faça! Em 1960 levaram-lhe a Roma una imagem em gesso de Nossa Senhora do Pilar. Quando o Fundador do Opus Dei ainda estava no Seminário, na festa das Mercês de 1924, tinha gravado na peanha esta jaculatória: Domina ut sit!, Senhora que se faça! A imagem conservou-se em Saragossa em casa de uns parentes e ele tinha-se esquecido dela. É uma manifestação comovedora da sua oração de tantos anos, antes que nascesse o Opus Dei.
(Boletim Informativo n°1, Lisboa)
Perto de Caracas, ao ar livre, na casa de retiros de Altoclaro, umas cinco mil pessoas seguiam as suas palavras em 14 de Fevereiro de 1975. Levantou-se um rapaz novo, de abundante barba que ainda realçava mais a sua jovialidade: - Padre, eu sou hebreu... O Fundador do Opus Dei interrompeu: - Eu amo muito os hebreus porque amo muito Jesus Cristo - amo-o com loucura- que é hebreu. Não digo que era, mas que "é": "Iesus Christus, heri et hodie, ipse et in saecula". Jesus Cristo continua a viver e é hebreu, como tu. O segundo amor da minha vida é uma hebreia: Maria Santíssima, Mãe de Jesus Cristo. De modo que olho para ti com carinho. Continua... Aquele homem de sorriso aberto ouviu uma forte ovação quando disse: - Acho que minha pergunta já está respondida.
(Salvador Bernal, Apontamentos sobre a vida do Fundador do Opus Dei, Lisboa 1978, 293)
Quando era pequeno - conta-nos - havia duas coisas que me incomodavam muito: beijar as senhoras amigas da minha mãe, que vinham visitá-la, e vestir fatos novos. Quando vestia um fato novo, escondiam-me debaixo da cama e recusava-me a sair à rua, teimoso...; a minha mãe com uma bengala das que usava o meu pai, dava umas ligeiras pancadas no chão, delicadamente, e eu então eu saía; por medo à bengala, não por outra coisa. Depois a minha mãe com carinho dizia-me: Josemaría, vergonha só para pecar. Muitos anos depois reparei que naquelas palavras havia uma razão muito profunda.
(Vázquez de Prada, El Fundador del Opus Dei,I, Rialp, 33)
Em Santa Isabel, metia-se às primeiras horas no confessionário, de manhã cedo. E todas as manhãs, no meio de uma confissão ou da leitura do breviário, ouvia abrir-se violentamente a porta da igreja e, a seguir, um estrépito de ruídos metálicos, seguido de um forte bater de porta. Curioso por saber de que se tratava, porque do confessionário não via a porta, colocou-se um dia à entrada da igreja. Ao abrir-se ruidosamente a porta, deu de caras com um leiteiro, carregado com os seus cântaros de distribuição do leite. Perguntou-lhe o que fazia. - Eu, Padre, venho todas as manhãs, abro (...) e cumprimento-O: "Jesus, aqui está o João, o leiteiro". O capelão ficou estupefacto, e passou aquele dia repetindo a sua jaculatória: - Senhor, aqui está este infeliz, que não te sabe amar como o João leiteiro.
(Vázquez de Prada, El Fundador del Opus Dei,I, Rialp, 501)
Passaram os anos e em 23 de Janeiro de 1929, em Madrid, junto do leito de uma moribunda com santidade de vida, Josemaría deu-lhe este encargo: "Se eu não vier a ser - mais do que um sacerdote bom - um sacerdote santo, diz a Jesus que me leve quanto antes".
(Vázquez de Prada, El Fundador del Opus Dei,I, Rialp, Madrid 1997)
Em mais de uma ocasião Monsenhor Escrivá de Balaguer referiu-se ao cálice de latão: "Eu celebro todos os dias, desde há muito tempo, com um cálice que me custou trezentas pesetas. Acontece-lhe uma coisa semelhante ao que acontece comigo; as pessoas vêem-no e dizem: é de ouro... Mas é pura aparência. Quando se desarma, com uma sinceridade total, lê-se em letras bem grandes: latão.
(Salvador Bernal, Apontamentos sobre a vida do Fundador do Opus Dei, Lisboa 1978, 343)
Recorda-nos uma das pessoas que viviam em Città Leonina: "O maior estimulo para nossa oração era ver como o Padre recorria a Deus. Muitas vezes, ao entrar no oratório, encontrávamo-lo ajoelhado num genuflexório, totalmente alheado de tudo o que não fosse falar com o Senhor, fixo apenas no Sacrário. Vê-lo fazer oração, animava a nossa generosidade".
(Hugo de Azevedo, Uma luz no mundo, Rei dos Livros, Lisboa, 1988, 206)